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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011
Eutrópio fala da sua passagem no Estoril

Vinícius Eutrópio, treinador de futebol
Profissional fala sobre a carreira e experiência em Portugal e como assistente de Parreira na África-10
Bruno Camarão

Vinícius Eutrópio é um comunicador por excelência. O papo tranquilo e cadenciado desse mineiro da cidade de Mutum talvez tenha relances de sua postura como atleta. Profissional por mais de uma década, tendo passado por categorias de base e defendido uma seleção de juniores do seu Estado, encerrou sua carreira nos campos quando era capitão do Náutico, aos 33 anos.

Naquele período, Vinícius já colocava em pauta o anseio de retomar seus estudos, em curso na faculdade de Educação Física, e transitar para a área técnica do futebol. Ao receber o convite do treinador Artur Neto para se tornar um auxiliar técnico da equipe principal pernambucana, não pensou duas vezes.

“Já não sentia mais tanto prazer pelo jogo, em si, apenas pelos treinamentos. A mudança foi bem tranquila, e passei a tecer um olhar como um membro do corpo técnico, em tom mais administrativo, preocupado com a gestão e o planejamento”, revelou Vinícius.

O hoje treinador, que viveu sua primeira experiência na Europa há pouco mais de um ano, dirigindo o Estoril Praia, que disputa a segunda divisão da Liga Portuguesa, está de volta ao Brasil. Certo de que sua formação como auxiliar técnico de 14 treinadores, coordenador do CT de formação de atletas do Atlético-PR e ótimo trabalho no Fluminense o credenciam para um novo desafio.

“Em 90% dos nossos jogos, tivemos mais posse de bola que o adversário e criamos mais oportunidades de gol, com um bom aproveitamento dos pontos disputados. O trabalho foi muito consistente”, justificou Vinícius – sua saída se deveu algumas questões político-administrativas envolvendo a Traffic, empresa que passou a gerir a agremiação lusitana.

Em Portugal, porém, o brasileiro avançou em diversos sentidos. Além do convívio com a Faculdade de Motricidade de Humana (FMH), onde até foi convidado para ministrar uma palestra sobre a escola de formação de jogadores, teve aprendizados sobre modelos de jogo diferentes aos quais estava acostumado e mergulhou no estudo da Periodização Tática.

“Me perguntavam em Portugal: ‘por que o futebol no Brasil é lento?’. Questionava, dizendo que não era assim e que, em uma umidade do ar alta, com temperaturas elevadas, campos ruins e viagens continentais, sem tempo de preparo e jogadores com uma alimentação deficitária desde a infância, diferentemente de boa parte da Europa, a influência era muito grande”, relembrou.

Para ele, a partir do momento em que o país que receberá a Copa do Mundo de 2014 possuir um calendário mais racional – ou uma adaptação dos profissionais da modalidade a ele –, tanto a Periodização Tática, como a intensidade dos treinamentos, podem ser muito úteis e reduzir o desgaste dos atletas.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Vinícius fala ainda com mais propriedade sobre as suas funções no Atlético-PR, pelo qual faturou três títulos estaduais e os vice-campeonatos brasileiro e da Libertadores, e como se deu a quebra de uma série de paradigmas a partir da unificação das equipes técnicas e implantação da área cultural e da introdução da área acadêmica. E, claro, sua relação de trabalho com Carlos Alberto Parreira, a quem serviu como assistente no Fluminense e observador na seleção da África do Sul.


Universidade do Futebol – Como se deu a transição da carreira como atleta profissional para o início dos trabalhos na gestão técnica de campo?

Vinícius Eutrópio – No decorrer de minha carreira como jogador, e por ser de uma família com irmãos e pais todos com ensino superior, eu me senti motivado e necessitado a também cursar uma faculdade, num complemento natural das coisas.

Quando atuava no União São João, de Araras, já cursava Educação Física em Sorocaba, mas não foi possível completar por conta das mudanças de cidade, contratado de um clube ao outro.

Aos 33 anos, capitão do Náutico, recebi o convite do treinador Artur Neto para mudar de função e me tornar um assistente técnico dele no próprio clube. Não pensei duas vezes e em uma semana ocorreu essa transição – já não sentia mais tanto prazer pelo jogo, em si, apenas pelos treinamentos.

A mudança foi bem tranquila, e passei a tecer um olhar como um membro do corpo técnico, em tom mais administrativo, preocupado com a gestão e o planejamento.

O Artur Neto, então, recebeu o convite para ser o treinador do Atletico-PR e me convidou para segui-lo.

O clube foi meu grande professor. Lá, no contato com diversos profissionais, como Antonio Carlos Gomes, além de vários treinadores e diretores, há um conceito bem arraigado que te permite e te estimula a novos projetos e desafios.

Tudo que tinha em minha cabeça consegui colocar em execução e fazer funcionar na prática ao longo dos seis anos de Atlético-PR.

Passei por todas as funções antes de me tornar treinador. Fui jogador de categoria de base, profissional durante 16 anos, fui auxiliar técnico de 14 treinadores, coordenador do CT da base do Atlético-PR até chegar ao atual patamar, como um autêntico gestor de futebol.


No Criciúma, capitão do Náutico e integrante da seleção mineira de juniores em 1984: Vinícius vestiu algumas camisas antes de preparar sua transição

 

Universidade do Futebol – Como foi a separação entre você e o Artur?

Vinícius Eutrópio – O nosso trabalho durou justamente três meses no Atlético-PR. Já havia a filosofia de uma comissão técnica permanente há seis anos, e somente treinador e auxiliar técnico chegavam ao clube.

Quando houve o fim do ciclo do Artur, para minha surpresa, a equipe técnica, bem como alguns atletas, foram à diretoria pedindo para que eu ficasse e passasse a integrar aquele staff fixo – prova da aceitação da minha conduta e do trabalho desenvolvido.

O Artur tem princípios muito fortes, é uma pessoa muito leal e de um caráter muito digno. Assim que recebeu a notícia da rescisão, ele me ligou e disse que, se houvesse a oportunidade de eu ficar, era para ser feito dessa forma, visto que eu estava em princípio de carreira.

Somos muito amigos até hoje e nossa “separação” acabou ocorrendo de maneira muito tranquila.


Universidade do Futebol – E o cotidiano de trabalho no Atlético-PR?

Vinícius Eutrópio – Foi interessante, pois estava há seis meses como auxiliar e não tinha experiência nenhuma com formação, muito menos como coordenação de um departamento deste porte.

Quando recebi o convite, a resposta era “sim” ou “sim”. Algumas metas foram traçadas e me foram apresentados os históricos do clube nas categorias de base.

Em quase 84 anos de história, desde a fundação, o Atlético-PR não tinha nenhum atleta convocado para uma seleção brasileira de base; há quatro anos, o clube não figurava entre os quatro mais bem colocados na categoria júnior do Campeonato Paranaense; e havia necessidade de formar atletas para vender e angariar lucro.

Com nosso método de trabalhar, em integração com todos os outros profissionais envolvidos nessa área técnico-científica, demos início à construção de uma filosofia diferente, com todo o aval do presidente Petraglia.

Os treinadores trocavam de funções e se ajudavam. Eu mesmo ia a campo, recebíamos as famílias, unificamos o modo de jogar em termos de características dos jogadores, eliminamos os preparadores físicos no infantil e colocamos coordenadores motores, dando ênfase à construção e capacitação do ser humano e do atleta, assim como levávamos grupos de atletas para teatros, eventos culturais, etc.

Ao término de três anos do projeto, fora os títulos, que são consequência, tivemos 17 jogadores convocados para seleções brasileiras de base; 23 jogadores levados ao grupo principal (a meta era de apenas um por ano); cerca de seis atletas da equipe principal titulares no vice-campeonato brasileiro de 2004 eram provenientes da formação; e alguns de milhões de dólares por causa da venda de jovens abaixo de 21 anos.

A sequência ocorreu com o Marco Antônio Biasotto e ficou estabelecida uma estrutura forte, a grande guinada da história do Atlético-PR. Muitas pessoas compraram essa ideia diferente e todos se empenharam muito. Atuei por lá até 2004, antes de migrar para o departamento profissional, trabalhando com diversos treinadores, como Abel Braga, Antonio Lopes, e o preparo da equipe em 2006 antes do Lothar Matthäus assumir.

Depois de seis anos de clube, com uma troca muito justa entre as partes, acabei me desligando e dei sequência à minha carreira.

Universidade do Futebol – No Fluminense, você atuou tanto no departamento de formação de atletas, quanto no grupo principal, primeiro com o Carlos Alberto Parreira. Relembre essa passagem.

Vinícius Eutrópio – Ao sair do Atlético-PR, criei uma nomenclatura e, no Fluminense, passei a atuar como “coordenador de apoio técnico”. Eu seria um auxiliar técnico permanente, mas que teria influência direta nas categorias de base, para formação de elenco e contratação.

Participei da montagem do time de 2007, campeão da Copa do Brasil, em parceria com o Sérgio Gregório, que também tinha passagem pelo Atlético-PR.

Montamos uma sala de musculação, outra de reuniões, para análise de jogos e conversa, e uma área de lazer e descanso, para manter os jogadores no clube quando havia treino em dois períodos.

Fiz também um link com Xerém, que era muito abandonado. Uma ou duas vezes por semana ia até lá, fazíamos reuniões, e participava inclusive dos treinamentos. Naquela leva, realizamos a transição de cinco jogadores, em quem apostamos, e obtivemos sucesso: Maurício, Tartá, Bob, Maicon e Alan.

Com eles, não houve interferência do treinador – eu mesmo que desenvolvia um trabalho específico com eles. O Mauricio foi para a Rússia. O Bob é do grupo principal hoje. E Maicon e Alan também foram para o exterior.



 

Universidade do Futebol – Em sua opinião o que deve mudar no trabalho das categorias de base nos clubes brasileiros? De forma geral, você acredita que o trabalho é bem feito, pelo menos nos grandes clubes?

Vinícius Eutrópio – Eu acredito que os talentos do futebol no Brasil são fruto muito da quantidade de jovens potenciais – além, claro, da qualidade dos profissionais que trabalham na base. Talvez não tenhamos um padrão, uma estrutura montada, para definir o perfil desses jogadores. Em especial, o processo de captação de jogadores.

No Atlético-PR, para citar, tínhamos um protocolo de avaliações e testes. Mas o fundamental para que pudéssemos aproveitar os talentos desde o início foi que as aprovações eram realizadas por todos os treinadores e por mim.

Normalmente, o comandante do sub-15 vai fazer uma escolha de um jogador mais forte, já pronto, para ajudá-lo na vitória na partida do próximo domingo. Mas nós, como coordenadores, temos de entender o atleta e o planejamento de forma mais global. As avaliações, então, tinham como critério o departamento principal, e todas as questões ligadas à maturação.

Um fator primordial que acontece em nosso cotidiano é a exigência que os clubes fazem para que os treinadores ganhem, por si só. Há muita pouca preocupação, ainda, com a formação mais ampla, contextualizada. Os treinadores, hoje em dia – e as faculdades estão ajudando isso –, possuem cada vez mais uma base acadêmica e passam a entender que a melhor formação ajudará diretamente no preparo mais qualificado de atletas inteligentes.

Universidade do Futebol – Como você se atualiza e qualifica hoje?

Vinícius Eutrópio – Mais estabilizado em Curitiba, desde a minha aposentadoria como atleta profissional, recomecei o curso de Educação Física. Passei quatro anos trabalhando como coordenador da base do Atlético-PR e simultaneamente estudei em uma faculdade. Foi uma experiência maravilhosa e que me rendeu muitos frutos, pois convergia a minha área de atuação com a vivência acadêmica. O trabalho era também meu laboratório.

Nós montamos um projeto no clube em que todos treinadores e preparadores de goleiros também eram formados em Educação Física.

Para me manter ativo, assino revistas de futebol, acesso sites, assisto a muitos jogos, e dentro deles pesquiso sobre espaços, aspectos táticos, utilizo bastante a tecnologia esportiva para auxiliar no meu treinamento. E a busca pelo conhecimento não pode parar.

 


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Universidade do Futebol – Durante quase dois anos você dirigiu a equipe do Estoril Praia, da segunda divisão portuguesa. Como foi essa experiência estrangeira?

Vinícius Eutrópio – Tive um ano e meio muito bom, logo após o fim do meu ciclo na Copa do Mundo de 2010, com a seleção da África do Sul. De lá, fui direto para a Europa, e assumi o Estoril Praia.

Tinha a intenção de buscar algo mais em Portugal e também oferecer algo. Fiz muitos contatos com treinadores, procurei me aproximar da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, mas se trata de um país bem fechado, muito por conta da cultural local, em relação à oportunidade para atletas, acadêmicos e jovens profissionais.

Conseguimos dentro de um protocolo com essa faculdade receber quatro alunos pós-graduados para nos ajudar no clube, com análise de jogos e estatísticas. A troca foi muito positiva, e busquei dentro do modo de cada jogador aprender sobre as especificidades do treinamento esportivo, em especial questões ligadas ao microciclo – era necessário entender todo esse processo esportivo cultural de um continente diferente.

Outra coisa é jogar contra aquelas linhas bem estreitas e compactas. Isso me fez desenvolver muitos princípios e mudar um pouco meu pensamento em relação a busca de espaço no campo, como superar barreiras, etc.

Em 90% dos nossos jogos, tivemos mais posse de bola que o adversário e criamos mais oportunidades de gol, com um bom aproveitamento dos pontos disputados. O trabalho foi muito consistente.



 

Universidade do Futebol – E por que retornou ao seu país natal?

Vinícius Eutrópio – O convite para treinar o Estoril partiu da empresa Traffic, que tem esse projeto muito interessante, e eles viram uma necessidade de mudança de rumo e de objetivos. Mas aí seguem várias hipóteses que não quero citar.

Não foi por causa do desempenho esportivo, sem dúvidas. Até porque traçamos algumas metas e executamos dentro do combinado. E também houve a necessidade de eu sair.

Na própria temporada passada, quando estava contratado pelo Estoril, recebi convites para dirigir algumas equipes da primeira divisão portuguesa, mas recusei.

Estou no Brasil agora, e não diria que não voltaria para a Europa. Mas pelo atual momento do nosso país, e apesar das resistências, com a organização da Copa-14, vivemos um momento excelente e minha aposta é me fixar por aqui. Me preparei durante 11 anos e tenho a expectativa de assumir uma equipe em breve.

Universidade do Futebol – Qual é a sua visão sobre a Periodização Tática, algo mais bem consolidado no ambiente português, e como você enxerga uma eventual adaptação desse conceito pelos gestores técnicos brasileiros nos clubes?

Vinícius Eutrópio – Em primeiro lugar, é bom frisar que uma minoria, mesmo, que se utiliza da Periodização Tática com sucesso.

No Brasil, devemos preparar mais os profissionais e não forçar nada. Eu mesmo não classifico meu trabalho como a Periodização Tática, mas uma mescla de tudo o que vi e vivi ao longo de minha carreira, ao lado dos outros companheiros de comissão técnica.

Há 10 anos se faziam 10 km de corrida em uma reapresentação pós-jogo na terça-feira. Hoje isso é muito raro. Da mesma forma, a Periodização vai ser inserida aos poucos, pelo nosso calendário, pelo nosso clima, pelos nossos campos, etc. Esse enfrentamento irá ocorrer, não como forma de cópia, mas de entendimento e facilitação.

Me perguntavam em Portugal: “por que o futebol no Brasil é lento?”. Questionava, dizendo que não era assim e que, em uma umidade do ar alta, com temperaturas elevadas, campos ruins e viagens continentais, sem tempo de preparo e jogadores com uma alimentação deficitária desde a infância, diferentemente de boa parte da Europa, a influência era muito grande.

A partir do momento em que tivermos um calendário mais racional, ou uma adaptação nossa a ele, tanto a Periodização Tática, como a intensidade dos treinamentos, podem ser muito úteis e reduzir o desgaste dos atletas.


Periodização, crê Vinícius, vai ser inserida aos poucos, muito por conta do calendário, do clima e dos campos brasileiros

 

Universidade do Futebol – Hoje em dia se discute muito a eficácia de se usar uma metodologia de treinamento que parta do Modelo de Jogo pretendido pelo treinador, ou seja, preparar a equipe (nos aspectos físicos, técnicos, táticos e até psicológicos) a partir das ações táticas, sem fragmentar muito os treinamentos. José Mourinho e André Villas Boas são dois treinadores que adotam essa metodologia. O que você acha dela?

Vinícius Eutrópio – Eu entendo que ela é corretíssima e procuro trabalhar dessa forma. Todos meus treinamentos, até no individual, são feitos dentro dos modelos táticos. Utilizo princípios de movimentação nos aquecimentos, inclusive, sempre ligando a prática ao Modelo de Jogo. E você consegue tirar do atleta o “desempenho físico”, para que ele leve isso para o jogo.

Universidade do Futebol – Isso demanda um suporte político, com o entendimento de dirigentes e profissionais envolvidos com a gestão administrativa dos clubes, ou é possível se realizar independentemente da relação, apenas pelo staff técnico?

Vinícius Eutrópio – Eu acho que é fundamental partir de cima para baixo. Equipes em que eu era o coordenador, como no Atlético-PR, visualizava o trabalho desenvolvido no profissional e procurava criar uma linha integrada com as equipes de formação.

Se houver o amparo de dirigentes à implementação dessas ideias, claro, a evolução tende a ser mais consistente e rápida.


 No Atlético-PR, coordenador visualizava trabalho desenvolvido no profissional e procurava criar uma linha integrada com as equipes de formação; buscou repetir isso no Estoril (foto)

 

Universidade do Futebol – O que você acha do jogador de futebol brasileiro atual em termos técnicos e de inteligência de jogo? E qual o paralelo você faz com o jogador português?

Vinícius Eutrópio – A diferença que vejo é em relação à improvisação. O brasileiro tem um poder maior, por causa da necessidade de se ajustar a várias plataformas de jogo e das constantes trocas de treinador em uma mesma equipe, mas não necessariamente tem a melhor tomada de decisão. Este aspecto é mais apurado no atleta português, que possui uma percepção maior.

Dentro de um sistema tático, se houver a necessidade de efetuar um drible ou operar algo que não foi planejado, o português encontra mais dificuldade. Fruto do “pragmatismo” dos jogos e dos esquemas táticos locais.

A capacidade do jogador brasileiro é muito grande, e ele está mais bem preparado. Mas ainda há muita coisa a evoluir, em diversos aspectos, para o salto ser maior.

Universidade do Futebol – Como você vê a relação entre treinador e atleta neste quesito da tomada de decisão e da autonomia? Você estimula seu grupo?

Vinícius Eutrópio – O jogador atual sempre quer saber as razões das atividades a se fazer. A partir da relação de confiança criada e do entendimento dos treinamentos e a absorção da forma de trabalho, o grupo irá avançar. Liberdade é diferente de libertinagem, e entender o processo de treinamento, modificando-o, é válido e necessário. O grupo deve sempre marcar presença e apontar sua opinião.


"Liberdade é diferente de libertinagem, e entender o processo de treinamento, modificando-o, é válido e necessário", diz.

 

Universidade do Futebol – Atualmente, faltam jogadores brasileiros protagonistas, com potencial ofensivo, nos principais clubes europeus? Qual a razão disso?

Vinícius Eutrópio – É difícil apontar o motivo certeiro. Eventualmente pode ser reflexo de uma nova geração. Também acredito na dificuldade do atacante brasileiro em se adaptar à Europa, desde aspectos culturais, passando por entendimento do jogo e aspectos táticos.

Surgiram muitos atletas de países que não tinham tanta tradição, como Chile, México, etc., nesse processo de globalização, com um nível de competitividade maior que os nossos e com menor preço no mercado. É preciso levar isso em consideração.

Quando o atleta vai à Europa, ele deve passar por um processo humano de adaptação. E talvez boa parte dos atacantes não passe por isso e encontre muitas dificuldades para superar as barreiras iniciais de um novo ambiente.

Universidade do Futebol – Qual é o peso da grande presença de jogadores brasileiros nas principais ligas de futebol de Portugal? Vê esse intercâmbio como algo positivo, ou é um impeditivo para o desenvolvimento de novos talentos locais?

Vinícius Eutrópio – Os dois lados. É importante a presença do jogador brasileiro nessas ligas para qualificar a disputa, mas também a liberação demasiada, pela ótica portuguesa, é ruim.

Um tema muito debatido é a liberação de estrangeiros nas categorias de base. Se não me engano, na seleção portuguesa sub-18, nenhum jogador de Porto, Benfica e Sporting teve convocações, justamente porque esses clubes não tinham nenhum destaque para oferecer.

Isso é muito ruim, e o país deve estabelecer um critério coerente, pois há muitos bons valores – é possível perceber. Mas os mesmos perdem espaço, desde jovens, para estrangeiros.

Sem contar que Portugal acaba sendo também uma porta de entrada para brasileiros que não estão tendo oportunidade no seu país natal.

Universidade do Futebol – De que maneira você costuma participar da montagem dos elencos das equipes com que você trabalha? Como se dá a definição do perfil dos atletas a partir das características do clube, os objetivos a serem alcançados, etc.?

Vinícius Eutrópio – Todo clube é uma empresa. E como empresa, há necessidade de planejamento com todos os funcionários envolvidos. Ao começar uma temporada, a parceria com diretoria e comissão técnica deve ser estabelecida. Dentro disso, está a avaliação do atual elenco, quais as buscas a se fazer, o orçamento previsto, etc.

Ser treinador no Fluminense é diferente de ser treinador no Caxias, por exemplo. Cada local tem sua característica e demanda uma adaptação. Há também o referencial sobre o número de atletas que serão promovidos. Quais as posições mais carentes, as expectativas, apostas, o número de jogadores ideal para uma equipe de acordo com as competições em disputa, etc.

Ter um banco de dados grande e atualizado é muito importante para, depois disso, entrar na etapa das características de cada jogador e estabelecer o grupo profissional: cada posição deve ter várias opções e, o mercado irá sinalizar quais contratações pontuais devem ser feitas.

Cabe ao gestor técnico de uma equipe o entendimento da realidade do mercado. Planejar é a palavra.


Para Vinícius, ao começar uma temporada, a parceria com diretoria e comissão técnica deve ser estabelecida: "planejar é a palavra"

 

Universidade do Futebol – Você também atuou durante muito tempo como assistente técnico. Qual é o seu papel neste caso e qual deve ser relação desse profissional com o treinador no estabelecimento da forma de jogar da equipe?

Vinícius Eutrópio – O primeiro ponto é ser extremamente fiel e aberto. Muitas vezes você não compartilha da ideia do Modelo de Jogo, mas irá fazer parte do mesmo a partir do momento em que você está nessa função.

Há vários auxiliares técnicos dentro de uma equipe. E apostar no método de trabalho do treinador e ter liberdade para intervir nas ações de treinamento é muito importante.

Sugerir mudanças táticas, técnicas e de treinamento são relevantes para o trabalho. E Ser fiel é diferente de ser submisso. A discussão é válida e temos de partir do princípio de que a honestidade prevalece.

O treinador tem de focar muito no jogo, e quando ele olhar para o lado, deve ter a sensação e a certeza de que está tudo funcionando. Os auxiliares devem resolver problemas, e não apresentar novas dificuldades.



 
Entrevista: Jairo Leal, assistente técnico de futebol

 

Universidade do Futebol – Você atuou como analista de seleções na última Copa do Mundo. Conte um pouco mais sobre esse trabalho.

Vinícius Eutrópio – O Parreira, com quem havia trabalhado no Fluminense, me fez o convite para ser observador da África do Sul e analisar os adversários. Passei 15 dias antes da Copa, observando especialmente o México, e me reuni com o grupo técnico para atuar em conjunto.

Apresentei dados, imagens, estatísticas, e compartilhava também ações na parte de treinamento, com o Jairo Leal. Foi uma experiência muito positiva.


Especial: Carlos Alberto Parreira, treinador de futebol

 

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publicado por gdestorilpraia às 17:31
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